Minha vida offshore

Minha vida offshore

As experiências únicas e intensas de quem trabalha embarcado em plataformas de petróleo.

Dormir e acordar durante dias seguidos, distante da família e dos amigos, mas cercado, por um lado, pelos equipamentos de uma planta industrial, e, por outro, pela imensidão azul do oceano. A vida de quem trabalha embarcado é cheia de desafios mas traz também experiências únicas e intensas, como as relatadas pelo engenheiro mecânico Emerson Soares Jasmim, 47 anos. Contratado pela Qualidados para a realização de serviços de manutenção em bombas centrífugas nas plataformas da Unidade Operacional Rio de Janeiro da Petrobras (UO Rio), Emerson aceitou contar para nós um pouco das dores e das delícias da vida offshore. Veja só:

Como é a sua rotina de trabalho hoje?

Eu trabalho com suporte técnico para bombas centrífugas em plataformas de petróleo da Petrobras. Parte da atividade é realizada em terra e consiste na avaliação e monitoramento remoto das bombas, emissão de laudos, pareceres e estudos técnicos e suporte técnico em geral. Frequentemente, é necessário o embarque para auxiliar as rotinas das atividades onshore, além de prestar suporte técnico offshore em falhas, defeitos, inspeções e outras situações envolvendo bombas centrífugas. Esses embarques ocorrem mensalmente, gerando serviços offshore que duram, em média, cinco dias. Até 2017, no entanto, meu regime era continuo, cumprindo a escala comum entre as equipes terceirizadas que atuam offshore, que consiste em alternar 14 dias embarcado e 14 de folga.

Como foi sua primeira experiência embarcado?

Fui contratado para atuar na Petrobras, em 2009, em regime onshore. Já nos primeiros três ou quatro meses, porém, surgiu a necessidade de embarcar na P-53 para resolver um problema num compressor de ar e aquele foi meu primeiro embarque. Apesar de ser uma planta industrial semelhante a todas as outras que eu já conhecia, aquela experiência me marcou de forma intensa. Logo na chegada, a 115 quilômetros de distância da costa, o impacto é grande: você olha para um lado e outro e vê um oceano imenso, de um azul muito intenso. Depois, assiste ao sol nascer e se pôr todos os dias no mar. É algo muito bonito, muito diferente.

Você teve alguma dificuldade de adaptação?  

Não, a minha adaptação foi muito rápida, muito tranquila. A partir deste primeiro embarque, comecei a fazer embarques frequentes e três anos depois passei a trabalhar na escala de 14 por 14. Mas há quem tenha dificuldades. Vi uma pessoa que já no segundo dia de confinamento pediu ao gerente da plataforma pelo amor de Deus para desembarcar, porque não tinha condições psicológicas de permanecer. E foi desembarcado. Em outra situação que não cheguei a presenciar, um cozinheiro pediu para desembarcar de qualquer jeito, mas não era possível porque a aeronave só pousa durante o dia.  Ele pulou da plataforma, no desespero, pensando em voltar a nado. Os alarmes soaram e ele foi resgatado.

Como é o convívio com os colegas nas plataformas?

A convivência é muito intensa. Em media, são 180 pessoas embarcadas e o ambiente é pequeno. Então você passa o tempo todo com aquelas pessoas, e acaba conhecendo todos muito rapidamente:  a vida de cada um, a personalidade de cada um. Até porque o ambiente de confinamento e a ausência da família te sensibilizam e você tem mais disponibilidade para conviver. Tenho muitas amizades construídas dentro da plataforma que vieram dessa convivência intensa com as pessoas.

Qual o maior desafio da vida offshore?

O maior desafio, com certeza, é a distância da família, da sua vida em terra. Ao chegar a bordo, você precisa virar a chave e deixar esta vida um pouco de fora, porque serão 14 dias com pouco contato, com pouca informação. Hoje em dia, esta situação melhorou, porque a internet nas plataformas da Petrobras é liberada.  É possível utilizar o whatsapp e outras redes sociais. Mas quando comecei embarcar em 2009, isto era proibido. Você tinha que lacrar seu celular no heliponto e só podia retirar o lacre na volta, 14 dias depois.

Esta situação prejudicou de alguma forma a sua convivência familiar?

Quando comecei a embarcar meus filhos não eram mais bebês: a menina mais nova tinha 9 anos e o mais velho 13. Acho que isso ajudou. E há também a folga. Você fica 14 dias longe da sua família, mas em compensação pode passar outros 14 totalmente dedicado a ela. Além disso, a minha família sempre compreendeu que é uma necessidade e uma oportunidade de trabalho.

Qual a melhor coisa de trabalhar offshore?

Participar da produção de petróleo, que representa a maior parte da economia desse país é gratificante. Atuar perto do equipamento, participando ativamente da produção, é muito legal. É uma oportunidade de aprendizado, de desenvolvimento profissional enorme, porque você vive intensamente os problemas, o dia a dia da produção. Os 14 dias embarcados equivalem talvez a meses de experiência em terra. E há momentos únicos que só quem trabalha embarcado conhece. Como estar no seu camarote, dar alguns passos até a varanda, observar aquele mar imenso com as plataformas iluminadas e imaginar as milhares de pessoas que estão trabalhando ali com você, ao mesmo tempo.

2019-08-20T19:13:38+00:0020/08/19|

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